Em minha prática de mais de 22 anos como professora de técnica vocal, ouvi timbres e expressões vocais, através do canto, das mais variadas, em centenas de alunos que passaram por minha Escola de Técnica Vocal e posso afirmar categoricamente que, observando os alunos, há uma carência enorme de informações histórico culturais no que se refere a música , ou seja, gêneros musicais, compositores, cantores e canções, embora o acesso a esse tipo de informação esteja ao nosso alcance de maneira fácil e farta, através dos meios de comunicação.
Como tal, a questão da
dificuldade em se cantar afinado vem se mostrando um aspecto recorrente na
minha prática como preparadora vocal. Venho me perguntando por que a escuta
musical tem sido tão negligenciada por grande parte das pessoas que se iniciam
no aprendizado da técnica vocal, mesmo os pretendentes a se tornarem cantores
profissionais. Vale chamar atenção para o fato de que a afinação depende
exclusivamente das informações, vivências e formação musical de um cantor, bem
como o seu interesse pela escuta musical. Não há como separarmos esse dois
aspectos, ou seja, escuta e afinação.
Sinto que alguns aspectos
relativos a nossa cultura trazem como consequência o agravamento do fator
escuta x afinação.
O Brasil é um país que não
investe em cultura e nem em educação musical, mas embora sejamos um povo
musical em função de nossas raízes indígenas e africanas, isso não nos basta
para nos tornarmos indivíduos com uma boa escuta musical e consequentemente boa
afinação. O que assistimos no nosso país é o desdobramento de um completo
abandono no que se refere a formação musical de sua população, somos um povo
órfão de educação musical e as produções musicais ficam restritas a uma elite
que tem o privilégio de pagar. Crescemos em escolas que não nos oferecem
educação musical . A escola pública não tem mão de obra qualificada e nem
estrutura para esse fim e a escola privada parece somente estar preocupada em
formar o aluno para que, no futuro, venha passar no vestibular. Somos criados
em famílias que porque também não tiveram estímulo, não estimulam seus filhos a
escutarem música. Sem contar que a profissão é encarada como uma atividade
inexpressiva porque não atende a demanda da produção e lucro.
De uma maneira geral o interesse
pela música, em grande parte, é despertado na adolescência, junto ao grupo de
amigos. Mas esses jovens já criaram uma lacuna de desinformação musical desde a
tenra idade. Aqueles que ingressam numa escola de música chegam com um ouvido
pouco treinado e com um desconhecimento quase total da nossa cultura musical,
ou seja, não conhecem clássicos da música brasileira e internacional,
desconhecem cantores brasileiros e internacionais que são ícones em todo o
mundo e que fizeram a história cultural no seu país de origem. Não sabem
diferenciar ou desconhecem quase que totalmente os gêneros musicais e
repertórios mais elaborados que são necessários para lhes fornecer uma
referência histórica e musical para lhes dar suporte para uma boa escuta. E
muitos, mesmo estimulados, não têm nenhum interesse em sair desse estado de
coisas.
Essa questão é agravada pela
mídia que massifica nossas preferências musicais e nos faz acreditar que um
gênero musical ou um cantor de sucesso é que vale a pena escutar ou imitar,
porque estão na moda. Interesses comerciais à parte, e esse artigo não tem a
intenção de denunciar ou privilegiar um gênero musical sobre os demais, afinal,
qualquer manifestação cultural é válida e necessária. A questão em discussão é
que, o espaço de divulgação das manifestações culturais em sua diversidade está
limitado, e de uma maneira geral, a qualidade das músicas que estão em
evidência é questionável, ou seja, melodias pobres, harmonias simplistas,
letras medíocres e vozes com uma afinação duvidosa. Em função da grande
divulgação através de meios de comunicação de massa importantes, dá-se a
impressão que essas canções são o que há de melhor em nossa cultura. E como o
Brasil é condescendente com música de má qualidade... Não há crítica e a
maioria dos cantores, numa busca enlouquecida de sucesso rápido e conquista do
mercado, apenas copiam aquilo que já circula nas mídias e esquecem de
aprimorar a sua escuta e formação
musical, o que lhes daria condições de criar algo novo, consistente e com
estilo.
Outro ponto a se considerar é a
rapidez e a quantidade de informações que temos que lidar no nosso cotidiano.
Vivemos numa luta desenfreada com o “tempo”, todos numa correria sem fim, e se
não há nem mais tempo para a escuta em nossas relações interpessoais, imagine
então, a nossa escuta musical...
Observando a recorrente
dificuldade de uma parte significativa de alunos para decorar a melodia das
músicas solicitadas para o estudo de técnica vocal, resolvi fazer uma pesquisa
com a seguinte pergunta: “ Como você escuta música?”
Meus alunos participaram dessa
pesquisa de forma muito gentil e contribuíram muito através de suas respostas.
Cada qual respondeu como, quando e onde, no seu cotidiano, escutam música. Cada
aluno forneceu várias respostas e situações diferentes.
• O
resultado foi o seguinte:
- 100% dos entrevistados relataram que escutam música no
carro, no percurso entre a residência, escola, trabalho, supermercado e afins.
98% escutam música enquanto dirigem, e
os outros 2% como passageiro.
- 100% dos alunos relataram que escutam música enquanto
fazem alguma outra atividade, ou seja, dirigindo, enquanto realizam alguma
atividade doméstica, fazendo ginástica, tomando banho, enquanto leem os e-mails
ou artigos no computador.
- 20% escutam música sem fazer outra atividade, com atenção
no que escutam.
- 25% relatam que
escutam música, cantando junto.
- 40% relatam que escutam pouca música em casa, por falta de
tempo.
• Os
recursos mais usados para a audição são:
- 40% - escutam música em telefone celular ou I Pods.
- 40% escutam música em computadores e Tablets.
- 20% escutam rádio.
- 20% escutam CDs e DVDs.
- 15% escutam música através de programas de TV ( Net TV,
The Voice, The X Factor, Sony, etc ).
- 5% escutam Vinil.
Esses dados
me fazem refletir e me sinto compelida a perguntar: será que nós, em função da
nova tecnologia, novos hábitos e nossa relação conturbada com o tempo, estamos
apenas ouvindo música e não escutando música?
Há uma
grande diferença entre ouvir e escutar.
Ouvir é a
capacidade de perceber os sons pelo sentido do ouvido, ou seja, captar sons de
maneira passiva e natural. É um processo puramente fisiológico. Ouvimos o tempo
todo, até mesmo quando estamos dormindo, mas necessariamente quando ouvimos,
não significa que estamos codificando ou compreendendo o som captado, não
significa que estamos escutando.
Escutar é
ouvir ativamente, prestando atenção naquilo que ouvimos. É codificar o som e
dar-lhe significado. É gerar consciência acerca do que foi ouvido.
Então,
escutar música enquanto dirigimos, ou fazendo outra atividade nos deixa numa
situação muito mais de ouvintes do que de escuta, já que nesses casos, teríamos
que dividir a nossa atenção entre o que ouvimos e a atividade em questão.
O simples
fato de ouvirmos música poderá nos trazer muito prazer sensorial, em função da
liberação de um neurotransmissor denominado dopamina – substância encontrada no
cérebro que ativa circuitos cerebrais no sentido de produzir as sensações de
prazer. É por isso que ao ouvirmos música, nos sentimos tão energizados e podemos até mesmo acessar lembranças que nos trazem as mais diversas
sensações.
Porém a
escuta é mais atentiva, afeta a nossa percepção cognitiva musical. Nesse
sentido o ouvinte que escuta, tende a identificar e compreender os elementos
que compõe uma música, ou seja , suas
características sonoras, os instrumentos que estão presentes, os arranjos, a
percepção rítmica, melódica e harmônica, bem como, a poesia que acompanha as
suas letras.
Somente
dessa forma poderemos praticar os nossos ouvidos para se tornarem mais musicais
e afinados.
Esse
treinamento auditivo é lento e progressivo e é através dele que qualquer um de
nós apura a nossa percepção no sentido de melhor identificar os sons de uma
melodia, a relação entre as alturas de um fraseado musical ( grave/agudo ), o
tempo de duração das notas musicais , os timbres dos instrumentos e vozes que
compõe o arranjo dessa canção.
Para se ter
uma ideia, o indivíduo que tem a sorte de nascer com um ouvido já treinado, com
a capacidade de perceber e dar nome a notas musicais e acordes, o que chamamos
de ouvido absoluto, é muito raro, ou seja, 1 pessoa a cada 10 mil. Portanto,
para nós que fazemos parte dos outros 9.999, somente a prática da escuta vai nos trazer a possibilidade de alcançarmos
um bom ouvido.
Cabe ressaltar
que não importa o equipamento que você utiliza para a escuta,( CD, I Pods, celular, computador,
rádio, vinil etc...), o importante é a sua atenção e tempo que você investe no
ato da escuta.
Então, ao
escutar uma música, fique atento a essas 12 dicas:
1- É
necessário , tranquilidade, atenção e concentração. A escuta denota estar num
ambiente tranquilo que favoreça a audição e concentração. A não ser que seja um
gênio, dividir a sua atenção entre a música e outra atividade, embora seja
muito prazeroso ( dirigir, atividades domésticas e afins ) não favorece o
aprendizado e a memorização.
2- Tente não
cantar junto com o cantor da canção nas primeiras audições. Feche os olhos e
escute pelo menos três vezes a música para melhor compreender e assimilar
a melodia, ritmo e letra. Torne essa atividade um hábito.
3- Repita a
audição de uma música quantas vezes forem necessárias. Repita essa audição em
dias diferentes. O cérebro precisa ser exercitado todos os dias para se criar o
aprendizado e assimilar o hábito. É como os músculos de nosso corpo que
necessitam de treino para ganhar massa.
4- Importante é não ter pressa. A velocidade em qualquer atividade não beneficia a
assimilação. O cérebro precisa de tempo para aprender a decodificar o som e
memoriza-lo. O ato da escuta é lento e a assimilação é progressiva.
5- Tente
observar quais os instrumentos estão presentes na canção. Tente absorver o
timbre de cada instrumento e a maneira como são tocados. Observe que alguns
instrumentos nos dão a nota que devemos cantar . Criar o hábito de escutar
notas e acordes, ajuda muito na afinação.
6- Observe
também o ritmo, andamento e a métrica do canto. Ao escutar, tente marcar com os
seus pés ou mãos, o ritmo da canção.
7- Tente
observar as relações entre as alturas, ou seja, onde a música é mais grave e
onde é mais aguda.
8- Assista
shows com mais concentração, e preste atenção na execução de cada instrumento e
na interpretação dos músicos e do cantor. O fato de estarmos vendo os artistas,
pode nos trazer mais estímulo no aprendizado.
9- Embora,
hoje, seja raro encontrar pessoas que têm o hábito de escutar música
instrumental, é bom ressaltar que esse tipo de música ajuda muito na
concentração, haja vista que, nas minhas observações com os meus alunos, ao
longo do tempo, verifiquei que a grande maioria só escuta a voz do cantor. Há
tanta coisa disponível na internet... Você já assistiu a apresentação de uma
orquestra sinfônica? Vale à pena conferir!!!
10- Escute
gêneros musicais diferentes. Tenho observado esse hábito entre meus alunos.
Aqueles que gostam de MPB, só escutam MPB, os cantores sertanejos só escutam
sertanejo, os que cantam gospel só têm hábito de escutar gospel, e assim
sucessivamente. Não estou sugerindo que aprendam a gostar de outros gêneros,
mas a escuta de gêneros variados, sem preconceitos, pode ajudar a ampliar e
otimizar a sua escuta musical. E há tantos outros gêneros ( Rock, Baião, Jazz,
funk, POP Music, Bossa Nova, Soul, Samba, Chorinho, e etc...)
11- Escolha
bons equipamentos de som para que você possa escutar os detalhes da música. Há
equipamentos que omitem frequências e distorcem os sons.
12- Tente
ampliar os seus conhecimentos e se abrir
para conhecer , músicos, cantores e grupos musicais das antigas e das novas gerações,
tanto no Brasil quanto das mídias internacionais. É um ótimo exercício para a
sua escuta.
Logo abaixo sugiro
algumas músicas instrumentais e/ou sinfônicas para a escuta. Gostaria de
oferecer infinitas sugestões porque há compositores e músicos geniais
espalhados por todo esse planeta, mas ao longo do nosso contato, através desse
blog, vou apresentando à vocês outras sugestões. Por enquanto, algumas escolhas
pessoais, 5 músicas instrumentais que marcaram a minha história musical.
Feche os olhos e apenas escute. Melhor escutar com fone de
ouvido para não escapar nenhum detalhe. Divirta-se!!!
• Pat Metheny - First Circle
• Astor Piazzolla- Adios Nonino
• Ennio
Morricone – trilha do filme - Cinema Paradiso
• Uakti - Arrumação
• Egberto Gismonti - Bachiana nº 5 -
Villa Lobos
Uma última dica:
• Na Radio
Uol há uma grande variedade de músicas instrumentais brasileiras, músicos
brasileiros de primeiríssima linha - Vale à pena conferir
Se você quiser compartilhar conosco as suas sugestões basta
enviá-las através desse blog. Desde já agradeço a sua atenção.
Por Aída Couto

Nenhum comentário:
Postar um comentário