quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Ouvir e Escutar


     Em minha prática de mais de 22 anos como professora de técnica vocal, ouvi timbres e expressões vocais, através do canto, das mais variadas, em centenas de alunos que passaram por minha Escola de Técnica Vocal e posso afirmar categoricamente que, observando os alunos, há uma carência enorme de informações histórico culturais no que se refere a música , ou seja,  gêneros musicais,  compositores, cantores e canções, embora o acesso a esse tipo de informação esteja ao nosso alcance de maneira fácil e farta, através dos meios de comunicação.

Como tal, a questão da dificuldade em se cantar afinado vem se mostrando um aspecto recorrente na minha prática como preparadora vocal. Venho me perguntando por que a escuta musical tem sido tão negligenciada por grande parte das pessoas que se iniciam no aprendizado da técnica vocal, mesmo os pretendentes a se tornarem cantores profissionais. Vale chamar atenção para o fato de que a afinação depende exclusivamente das informações, vivências e formação musical de um cantor, bem como o seu interesse pela escuta musical. Não há como separarmos esse dois aspectos, ou seja, escuta e afinação.

Sinto que alguns aspectos relativos a nossa cultura trazem como consequência o agravamento do fator escuta x afinação.

O Brasil é um país que não investe em cultura e nem em educação musical, mas embora sejamos um povo musical em função de nossas raízes indígenas e africanas, isso não nos basta para nos tornarmos indivíduos com uma boa escuta musical e consequentemente boa afinação. O que assistimos no nosso país é o desdobramento de um completo abandono no que se refere a formação musical de sua população, somos um povo órfão de educação musical e as produções musicais ficam restritas a uma elite que tem o privilégio de pagar. Crescemos em escolas que não nos oferecem educação musical . A escola pública não tem mão de obra qualificada e nem estrutura para esse fim e a escola privada parece somente estar preocupada em formar o aluno para que, no futuro, venha passar no vestibular. Somos criados em famílias que porque também não tiveram estímulo, não estimulam seus filhos a escutarem música. Sem contar que a profissão é encarada como uma atividade inexpressiva porque não atende a demanda da produção e lucro.

De uma maneira geral o interesse pela música, em grande parte, é despertado na adolescência, junto ao grupo de amigos. Mas esses jovens já criaram uma lacuna de desinformação musical desde a tenra idade. Aqueles que ingressam numa escola de música chegam com um ouvido pouco treinado e com um desconhecimento quase total da nossa cultura musical, ou seja, não conhecem clássicos da música brasileira e internacional, desconhecem cantores brasileiros e internacionais que são ícones em todo o mundo e que fizeram a história cultural no seu país de origem. Não sabem diferenciar ou desconhecem quase que totalmente os gêneros musicais e repertórios mais elaborados que são necessários para lhes fornecer uma referência histórica e musical para lhes dar suporte para uma boa escuta. E muitos, mesmo estimulados, não têm nenhum interesse em sair desse estado de coisas.

Essa questão é agravada pela mídia que massifica nossas preferências musicais e nos faz acreditar que um gênero musical ou um cantor de sucesso é que vale a pena escutar ou imitar, porque estão na moda. Interesses comerciais à parte, e esse artigo não tem a intenção de denunciar ou privilegiar um gênero musical sobre os demais, afinal, qualquer manifestação cultural é válida e necessária. A questão em discussão é que, o espaço de divulgação das manifestações culturais em sua diversidade está limitado, e de uma maneira geral, a qualidade das músicas que estão em evidência é questionável, ou seja, melodias pobres, harmonias simplistas, letras medíocres e vozes com uma afinação duvidosa. Em função da grande divulgação através de meios de comunicação de massa importantes, dá-se a impressão que essas canções são o que há de melhor em nossa cultura. E como o Brasil é condescendente com música de má qualidade... Não há crítica e a maioria dos cantores, numa busca enlouquecida de sucesso rápido e conquista do mercado, apenas copiam aquilo que já circula nas mídias e esquecem de aprimorar  a sua escuta e formação musical, o que lhes daria condições de criar algo novo, consistente e com estilo.

Outro ponto a se considerar é a rapidez e a quantidade de informações que temos que lidar no nosso cotidiano. Vivemos numa luta desenfreada com o “tempo”, todos numa correria sem fim, e se não há nem mais tempo para a escuta em nossas relações interpessoais, imagine então, a nossa escuta musical...

Observando a recorrente dificuldade de uma parte significativa de alunos para decorar a melodia das músicas solicitadas para o estudo de técnica vocal, resolvi fazer uma pesquisa com a seguinte pergunta: “ Como você escuta música?”

Meus alunos participaram dessa pesquisa de forma muito gentil e contribuíram muito através de suas respostas. Cada qual respondeu como, quando e onde, no seu cotidiano, escutam música. Cada aluno forneceu várias respostas e situações diferentes.

•             O resultado foi o seguinte:

- 100% dos entrevistados relataram que escutam música no carro, no percurso entre a residência, escola, trabalho, supermercado e afins. 98%  escutam música enquanto dirigem, e os outros 2% como passageiro.

- 100% dos alunos relataram que escutam música enquanto fazem alguma outra atividade, ou seja, dirigindo, enquanto realizam alguma atividade doméstica, fazendo ginástica, tomando banho, enquanto leem os e-mails ou artigos no computador.

- 20% escutam música sem fazer outra atividade, com atenção no que escutam.

 - 25% relatam que escutam música, cantando junto.

- 40% relatam que escutam pouca música em casa, por falta de tempo.

•             Os recursos mais usados para a audição são:

- 40% - escutam música em telefone celular ou I Pods.

- 40% escutam música em computadores e Tablets.

- 20% escutam rádio.

- 20% escutam CDs e DVDs.

- 15% escutam música através de programas de TV ( Net TV, The Voice, The X Factor, Sony, etc ).

- 5% escutam Vinil.

          Esses dados me fazem refletir e me sinto compelida a perguntar: será que nós, em função da nova tecnologia, novos hábitos e nossa relação conturbada com o tempo, estamos apenas ouvindo música e não escutando música?

          Há uma grande diferença entre ouvir e escutar.

          Ouvir é a capacidade de perceber os sons pelo sentido do ouvido, ou seja, captar sons de maneira passiva e natural. É um processo puramente fisiológico. Ouvimos o tempo todo, até mesmo quando estamos dormindo, mas necessariamente quando ouvimos, não significa que estamos codificando ou compreendendo o som captado, não significa que estamos escutando.

           Escutar é ouvir ativamente, prestando atenção naquilo que ouvimos. É codificar o som e dar-lhe significado. É gerar consciência acerca do que foi ouvido.

          Então, escutar música enquanto dirigimos, ou fazendo outra atividade nos deixa numa situação muito mais de ouvintes do que de escuta, já que nesses casos, teríamos que dividir a nossa atenção entre o que ouvimos e a atividade em questão.

          O simples fato de ouvirmos música poderá nos trazer muito prazer sensorial, em função da liberação de um neurotransmissor denominado dopamina – substância encontrada no cérebro que ativa circuitos cerebrais no sentido de produzir as sensações de prazer. É por isso que ao ouvirmos música, nos sentimos tão energizados e  podemos até mesmo acessar  lembranças que nos trazem as mais diversas sensações.

           Porém a escuta é mais atentiva, afeta a nossa percepção cognitiva musical. Nesse sentido o ouvinte que escuta, tende a identificar e compreender os elementos que  compõe uma música, ou seja , suas características sonoras, os instrumentos que estão presentes, os arranjos, a percepção rítmica, melódica e harmônica, bem como, a poesia que acompanha as suas letras. 

          Somente dessa forma poderemos praticar os nossos ouvidos para se tornarem mais musicais e afinados.

           Esse treinamento auditivo é lento e progressivo e é através dele que qualquer um de nós apura a nossa percepção no sentido de melhor identificar os sons de uma melodia, a relação entre as alturas de um fraseado musical   ( grave/agudo ), o tempo de duração das notas musicais , os timbres dos instrumentos e vozes que compõe o arranjo dessa canção.

          Para se ter uma ideia, o indivíduo que tem a sorte de nascer com um ouvido já treinado, com a capacidade de perceber e dar nome a notas musicais e acordes, o que chamamos de ouvido absoluto, é muito raro, ou seja, 1 pessoa a cada 10 mil. Portanto, para nós que fazemos parte dos outros 9.999, somente a prática da escuta  vai nos trazer a possibilidade de alcançarmos um bom ouvido.

          Cabe ressaltar que não importa o equipamento que você utiliza para a escuta,( CD, I Pods, celular, computador, rádio, vinil etc...), o importante é a sua atenção e tempo que você investe no ato da escuta.

         Então, ao escutar uma música, fique atento a essas 12 dicas:

1-       É necessário , tranquilidade, atenção e concentração. A escuta denota estar num ambiente tranquilo que favoreça a audição e concentração. A não ser que seja um gênio, dividir a sua atenção entre a música e outra atividade, embora seja muito prazeroso ( dirigir, atividades domésticas e afins ) não favorece o aprendizado e a memorização.

2-     Tente não cantar junto com o cantor da canção nas primeiras audições. Feche os olhos e escute pelo menos três vezes a música para melhor compreender e assimilar a melodia, ritmo e letra. Torne essa atividade um hábito.

3-      Repita a audição de uma música quantas vezes forem necessárias. Repita essa audição em dias diferentes. O cérebro precisa ser exercitado todos os dias para se criar o aprendizado e assimilar o hábito. É como os músculos de nosso corpo que necessitam de treino para ganhar massa.

4-     Importante é não ter pressa. A velocidade em qualquer atividade não beneficia a assimilação. O cérebro precisa de tempo para aprender a decodificar o som e memoriza-lo. O ato da escuta é lento e a assimilação é progressiva.

5-       Tente observar quais os instrumentos estão presentes na canção. Tente absorver o timbre de cada instrumento e a maneira como são tocados. Observe que alguns instrumentos nos dão a nota que devemos cantar . Criar o hábito de escutar notas e acordes, ajuda muito na afinação.

6-          Observe também o ritmo, andamento e a métrica do canto. Ao escutar, tente marcar com os seus pés ou mãos, o ritmo da canção.

7-           Tente observar as relações entre as alturas, ou seja, onde a música é mais grave e onde é mais aguda.

8-     Assista shows com mais concentração, e preste atenção na execução de cada instrumento e na interpretação dos músicos e do cantor. O fato de estarmos vendo os artistas, pode nos trazer mais estímulo no aprendizado.

9-         Embora, hoje, seja raro encontrar pessoas que têm o hábito de escutar música instrumental, é bom ressaltar que esse tipo de música ajuda muito na concentração, haja vista que, nas minhas observações com os meus alunos, ao longo do tempo, verifiquei que a grande maioria só escuta a voz do cantor. Há tanta coisa disponível na internet... Você já assistiu a apresentação de uma orquestra sinfônica? Vale à pena conferir!!!

10-     Escute gêneros musicais diferentes. Tenho observado esse hábito entre meus alunos. Aqueles que gostam de MPB, só escutam MPB, os cantores sertanejos só escutam sertanejo, os que cantam gospel só têm hábito de escutar gospel, e assim sucessivamente. Não estou sugerindo que aprendam a gostar de outros gêneros, mas a escuta de gêneros variados, sem preconceitos, pode ajudar a ampliar e otimizar a sua escuta musical. E há tantos outros gêneros     ( Rock, Baião, Jazz, funk, POP Music, Bossa Nova, Soul, Samba, Chorinho,  e etc...)

11-    Escolha bons equipamentos de som para que você possa escutar os detalhes da música. Há equipamentos que omitem frequências e distorcem os sons.

12-      Tente ampliar os seus conhecimentos e se  abrir para conhecer , músicos, cantores e grupos musicais das antigas e das novas gerações, tanto no Brasil quanto das mídias internacionais. É um ótimo exercício para a sua escuta.

Logo abaixo  sugiro algumas músicas instrumentais e/ou sinfônicas para a escuta. Gostaria de oferecer infinitas sugestões porque há compositores e músicos geniais espalhados por todo esse planeta, mas ao longo do nosso contato, através desse blog, vou apresentando à vocês outras sugestões. Por enquanto, algumas escolhas pessoais, 5 músicas instrumentais que marcaram a minha história musical.

Feche os olhos e apenas escute. Melhor escutar com fone de ouvido para não escapar nenhum detalhe. Divirta-se!!!

•             Pat Metheny - First Circle 



•             Astor Piazzolla- Adios Nonino



•             Ennio Morricone – trilha do filme - Cinema Paradiso  



•             Uakti  - Arrumação

•             Egberto Gismonti - Bachiana nº 5 - Villa Lobos



                Uma última dica:

•             Na Radio Uol há uma grande variedade de músicas instrumentais brasileiras, músicos brasileiros de primeiríssima linha - Vale à pena conferir

Se você quiser compartilhar conosco as suas sugestões basta enviá-las através desse blog. Desde já agradeço a sua atenção.


Por Aída Couto

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